Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

# 1
























A decisão de ir para o Algarve não foi tomada de ânimo leve. Os meus pais não compreenderam e fizeram todos os esforços para me demover. O que acho compreensível. Mas não conseguiram. Acho que até há última hora estavam convencido que ia desistir. Mas não foi isso que aconteceu.
Como é que se explica que se desiste de tudo e se vai viver para o Algarve sem qualquer plano ou estratégia? Não sei. E também não sei se a forma que arranjei foi a melhor. Mas foi a minha. Estava a viver com os meus pais novamente há menos de um ano. Tinha regressado depois de ter vivido dois anos junto. É ridículo e triste voltar para casa dos pais. Principalmente quando se tem 34 anos. Se ainda gostava dela? Claro. Perguntaram os meus pais e foi a resposta que lhes dei. Porque não lutas por ela? Disse o meu pai com aquele olhar de quem insinua que o coração de uma mulher não é presa fácil. Bem sei, pai, bem sei, pai. Pensei mas não disse nada. Sentado na sala da casa onde cresci com a cabeça apoiada nas mãos, cotovelos nos joelhos e os olhos no chão. Não, recusava-me a que os meus pais me vissem chorar enquanto despejava a razão de estar ali. Naquela sala, naquele exacto momento.
Se começasse por dizer que eram projectos vida diferentes, não era mentira. Mas era apenas uma pequena parte. Fui ingénuo o suficiente para acreditar que não era isso que iria hipotecar um futuro. Mas que sabia eu aos 31 anos? Nada. Não sabia na altura e não sabia agora. Nesta altura, e ainda no início do relato, a minha mãe colocou a sua mão no meu ombro e disse que nunca ninguém sabe. A voz tremia-lhe e ainda nem sequer tinha começado. Ganho coragem para levantar a cabeça. Retirei o maço do bolso das calças e acendo um cigarro. O meu pai fez um gesto de dizer qualquer coisa mas a minha mãe impede-o. Funguei umas quantas vezes. Voltamos sempre aos nossos pais. Acho que me apercebi tarde demais. Claro que deve ter havido sinais. O mais provável é que os tenha ignorado. Não sei se propositadamente ou inconscientemente. Mas ignorei-os. Era normal passarmos semanas ou mesmo meses sem termos relações. Quando lhe falei nisso, a única resposta que obtive dela era que preferia que fosse poucas vezes mas que fossem boas. Que fossem um momento dos dois, de entrega. Ao invés de fazermos dia sim, dia não feitos coelhos. Dizia-me aquilo enquanto se enroscava em mim. Deixava-me levar. Mas quando o fazíamos não era bom. Não era um momento dos dois. Era antes algo incómodo e desarticulado. Parecia uma prova de calendário ou apenas para cumprir uma qualquer função básica corporal. Voltei a baixar a cabeça. Era difícil contar isto. Assumi que a culpa fosse minha. Afinal passava o tempo fora. A casa onde vivíamos era dela e talvez ela nunca tivesse passado por cima de eu ser um corpo estranho naquilo que era o seu espaço. Eu juro, juro que tentei inverter as coisas. Ou pelo menos acho que sim. Nesta altura já não sei. Quando saíamos era sempre com os seus amigos. E eu não me podia sentir mais à parte. Era ignorado. Pouco ou nada falávamos em grupo. Eu simplesmente ficava ali sentado à frente do meu copo ou do meu café. Ela falava pelos cotovelos. Brincava com os amigos. Demais para o meu gosto. Quando lhe falei nisso a única coisa que tive foi um “não sejas parvo!”. Ok, questão arrumada. Por vezes levantava-me e vinha à rua fumar um cigarro. Demorasse cinco minutos ou quinze, nunca davam pela minha falta. No regresso a casa as conversas triviais. Tirando as actuais namoradas dos amigos, nunca eram suficientes para eles.

10 comentários:

earlymorningtalk disse...

ouch.
tive uns dejà vu aí para o meio.

*

Rita disse...

Gosto de ler o que escreves...

tiago leal disse...

Mudar de cidade é bem lixado... eu que o diga...

viagensnomeucaderno.blogspot.com

Pipoca dos Saltos Altos disse...

Não vou tecer nenhum comentário elaborado. Já me leste na mesma situação. São "segredos" frágeis e são nossos, daí baixarmos tanto o solhos na hora de falar neles. Um beijo

NaRiZiNhO disse...

Ontem li de fio a pavio, queria parar e descolar o olhar mas as frases puxavam e colavam-me.
não vou comentar a história em si, porque essa por mais ficção que escrevas está bem próxima de muitas realidades e de imensos "issues" de tantos homens e mulheres.
mas não posso de todo deixar passar a escrita. os sentimentos que provocas. posso dizer que à medida que lia sentia no estômago um frio, uma bola de frio e as mãos suavam, quase como que se o estivesse a ler fosse sobre alguém que me é querido.
Parabéns :)

M. disse...

Tal e qual a minha situação com o meu ex-namorado que, felizmente e em boa hora, consegui pôr fim a uma relação gasta, pouco interessante e sem futuro. Com a grande diferença que não cheguei a sair de casa dos pais, não cheguei a estrear a casa nova e os móveis recentemente comprados. E ainda bem.
Mas, no fundo, aprendi muito e, sobretudo, mudei imenso.

Beijinhos,
M.

P.S.: Descobri este blog há dias e adorei :)

Ca disse...

Gosto muito da maneira como escreves, leio-te há algum tempo, só nunca disse nada porque nunca sei o que dizer.
Mas ando por aqui...

Ego disse...

obrigado a todos

eu... disse...

Story of my life, há uns anos. Custou mas aprendi muito, pelo que li não fui a única.

bee disse...

ficção ou realidade, o que interessa é que escreves cada vez melhor. consigo-me identificar com muita coisa, e hoje não foi excepção. parabéns!