Todos temos em algum momento um coração partido. Rasgaram-nos a pele sem a mínima contenção pelos estragos que pudessem ser causados. Foderam-nos a razão, a emoção e tudo o que de mais veio à mão. Sem dó nem piedade, deixaram-nos na merda. Somos infelizes naqueles momentos que se seguem. Incapazes de sorrir ou tolerar a companhia seja de quem for. Só nos suportamos a nós, e mesmo assim a custo. Vemos o nosso reflexo no espelho e o que este nos retribui é uma figura pálida, triste e nua que nos olha com aqueles olhos que já nada sentem.
Como é possível que alguém nos mate e mesmo assim nos deixe com vida, com o único propósito de assistirmos a esta merda de existência? Começamos a questionar o que é o amor, o que é a paixão, começamos a racionalizar o porquê, o quando e o como. Não vale a pena, é o que é, foi o que foi. E o que resulta é isto. O nosso reflexo no espelho. Uma figura escanzelada, desprovida de compaixão própria. Mera existência que agora somos.
Achamos que nunca vai acabar. Somos a personificação do sofrimento. Até a um dia. Um dia olhamos para o espelho e vemos um sorriso. Questionamos, o que raio está aquilo ali a fazer. Intrigados sorrimos de novo só para o ver. É genuíno. Temos prazer no sorriso. No dia seguinte descobrimos a razão. Estamos livres. Somos nós novamente. Não há mais dor. Acabou. Não morremos.
Até ao dia. Em que nos tocam e ficamos a olhar para aquela pele que toca na nossa e nos sentimos a sorrir novamente. Merda, e agora? Vamos passar por tudo novamente? Mas agora é diferente, não sentimos dor, mas um sufoco. Questionamos e agimos como parvos que perderam o jeito para andar. Tropeçamos em nós próprios e tentámos a custo aguentarmo-nos. Onde havia dor há agora parvoíce. Mas sentimo-nos vivos. O nosso reflexo ganha cor, ganha existência, sorri-nos de volta.

23 comentários:
identifiquei-me! E estou na fase parva! E tenho receios!
bem...sinto-me tal e qual!! acho que nunca o descreveria tão bem..*
É assim mesmo.
Por fim só temos que nos deixar tocar e seguir em frente (mesmo que o medo seja mais que muito).
Vamos embora que se faz tarde. No fundo isto é tudo feito de ciclos, uns momentos bons, uns momentos maus.
A vocês que comentaram, as vezes acho que escrevo como um puto, alguém que não sabe o que fazer com as palavras. , obrigado por terem manifestado agrado pelo texto.
Ego, os momentos bons compensam sempre os maus (digo eu, uma eterna sobrevivente)
E estas coisas do coração têm que ver com o que se sente, não com a forma como se conta o sentimento ;)
Sim, é mesmo assim que acontece :)
Um ciclo vicioso, portanto
Há que acreditar que as coisas boas acontecem e que a dor não é eterna. Gostei. :)
Sim, um ciclo. Uma das pouquíssimas vertentes da vida em que parece que não aplicamos o que a experiência nos dá.
Acontece e volta a acontecer... Pergunto-me se esse ciclo tem um final?...
@ S*
Gracias ;)
@ Anna
Não há final, é sempre em loop.
Cheguei aqui via Pipoca dos Saltos Altos e ainda bem que assim foi. Gostei, muito, e deste texto em particular, que qualquer um de nós poderia escrever em algum momento da vida, se devidamente inspirados pela capacidade que te assomou (e essa é que é rara).
Desculpa, mas está de tal forma genuino que vou ter de roubar (com a devida menção a ti!)*
Até me arrepiei, rapaz!
Óptimo texto!
É isso mesmo...
Obrigado
É sempre assim. Uns downs mais dolorosos que outros, com mais ou menos álcool na ferida, mas levantamo-nos sempre. Caminhamos tropegos, passo a passo e quase numa cura simultânea vamos vivendo cautelosamente o dia-a-dia. Até ao dia em que andamos sem dificuldade, sem dar conta, já com passos mais seguros... até à próxima queda, porque a vida é feita disso: ups and downs.
So true...
É bom voltar a ser parvo... ;)
Adorei o texto... até porque me sinto parva ultimamente ;)
Vou furtar para o meu blog com a devida referência, posso? beijinho
Força.
parabéns, inspirador!
é que não diria melhor. acontece que ainda estou no princípio...e ainda me é difícil sorrir de alma leve...
esperança. tempo. eu espero!
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