Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013

Desejos para hoje

Estou longe. Escolho o continente americano. Deixo NYC e vou para Sul. Miami, na parte norte, Rio, na parte Sul. O dia começa com Monarchy of Roses e desço até à praia carregado com a prancha Malibu da Saturdays NYC. Apanhar sol de seguida numa cadeira de perna cruzada ao melhor estilo americano. Uma coca-cola em homenagem a Frank O'Hara. Pedalar de seguida com a minha single speed pelas ruas planas. Elas passeiam-se de sandálias compensadas a realçar as pernas longas e bronzeadas a descoberto pelos calções minúsculos. Tipos de cabelo com gel aceleram ao meu lado nos descapotáveis.

Até já, vou regressar a Lisboa. Até já, vou regressar ao Chiado, onde o sol brilha mas esta frio e as águas estão geladas.

Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

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O Vento sopra sempre a Oeste

Henrique

Nos idos meses quentes

Gosto de correr atrás de uma bola. Já gostei mais, é verdade. A idade tem-me tornado cada vez mais solitário. Os desportos que mais gosta são cada vez mais actividades solitárias. Uma bicicleta e uma prancha. Com rodas para andar pelo alcatrão ou sem rodas para andar por cima do mar. Não sou esquisito. Sou o tipo ridículo que entra nas lojas com os putos para escolher as rodas mais fixes. A Prancha mais cool. Sou o tipo que na reunião da faculdade entra de t-shirt lisa da American Apparel e New Balance nos pés. Sento-me ao lado dos tipos com os Polos Ralph Lauren e delas com maquilhagem YSL.

Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2013

Na última noite do ano, na primeira madrugada do ano

Sentados nas escadas. Os nós das gravatas já estiverem mais compostos. No ar uma qualquer música para dançar de melodia triste. Elas dançam com os seus vestidos verdes e encarnados Dior e Chanel em cima dos sapatos de salto alto sob as luzes douradas. Ttermina mais um ano", diz-me. Aceno com a cabeça. Bebo mais um gole do Martini que tenho nas mãos. "Tens erva?", pergunta-me. "Não, não tenho", e sinto a voz arrastar-se. "Não faz mal, fumo mais um cigarro". Estende-me o maço que recuso. Fala-me de uma maquina de escrever que comprou na amazon, a prenda para si próprio. Diz-me que começou a escrever, "Sabes o que é isso?". Abano em cabeça em negação. Prefere escrever em papel em vez de guardar no disco rígido de um computador. Diz que como as revistas e os livros, prefere o real. Não sabe da existência disto aqui. fuma e fala. Oiço-o em segundo plano, por detrás da música. Vejo-o em segundo plano, por detrás das pessoas que dançam contentes.

A última noite do ano é como que um filme em 12 planos. Um por cada mês. Faço listas mentais Quero beber mais vinho tinto. Quero escrever mais. Quero beija-la mais. Quero ler mais. Quero apanhar mais ondas. Quero muitas coisas e quase nenhuma envolve dinheiro. E isso deixa-me contente.

Interrompo-o. Dou um gole que acaba com o resto do Martini que tinha no copo. "Não vamos passar a noite aqui como dois parvos nas escadas, pois não?" E metemo-nos no meio das pessoas que dançam contentes a melodia triste que esta no ar.



Antevisão de um futuro modernista




Somos a última pessoa viva. Somos o último coração que bate. Já não nos cruzamos ao longo do dia com autómatos de dentes perfeitos e roupas sem vincos. Como catálogos da Net-a-Porter ou Mr Porter. Fatos e vestidos imaculados em pessoas de uma só expressão sentadas em secretárias demasiado arrumadas.Não ouvimos mais a tocar nos altifalantes nos cruzamentos a música Byebeyland dos Guilemonts.

Os espelhos já não nos dão reflexos, mas dão-nos memórias. A nossa memória é uma fita de 8mm antiga com saltos na imagem. Vivemos numa cápsula que nos dá a ideia de espaço, mas vivemos em 2 metros quadrados. Não conhecemos o conceitos de beleza, confunde-se com o que ainda nos lembramos. Os únicos cheiros que ainda conhecemos vem por um tudo pequenino ao fundo na cápsula. Recriamos a história todos os dias quando acordamos. Não sabemos como são os dias. Não sabemos de que cor é ainda o sol.

Então, foi assim

Conheci Cécile no dia em que cheguei a Manhattan. Era ela que vinha no carro que me trouxe à ilha. Foi ela que me acompanhou nos dias seguintes. Foi ela que com a vontade que sempre manifestou passou a representar-me. No final dessa semana acordamos deitados ao lado um do outro. Sentei-me recostado Na cama a olhar para ela. Perguntei-lhe o que era aquilo. O que representava. “O que lhe quiseres chamar” respondeu-me. Foi até à janela e vestiu uma camisa de xadrez. Acendeu um cigarro e o fumo ficou a dançar junto ao tecto. Sorrio a olhar para mim. Insisti mais uma vez, a medo. “Meu querido, dormimos juntos, foi isso. Não é preciso fazer um tratado filosófico sobre isso. Eu quis, e tu, espero, que também quisestes. Foi bom, eu gostei”. Debruçou-se sobre a cama deu-me um beijo na testa e deu-me o cigarro para a mão. A camisa subiu um pouco acima da linha do rabo.

Domingo, 30 de Dezembro de 2012

Ultimo post do ano

Adoro NYC e sou apaixonado por Paris. Mas além de Lisboa, na Europa, vivia em Londres. Divido-me por estas quatro cidades. O ciclo interrompia-se somente para ir até Mykonos. Leio os americanos. Vejo os filmes franceses. Calço ténis americanos e visto jeans franceses. Pedalo uma bicicleta inglesa. Isto poderia resumir o ultimo ano, ou todos os anos anteriores. Seria a mesma coisa. Gosto dos tintos alentejanos.

Mas o que o ano tem de importante são as pessoas. As do olá do café. As que estavam ao meu lado nos concertos. As que me pegaram na mão. As que atenderam as minhas chamadas, que responderem às SMS, aos emails.

Um bom ano. Simples, directo. E que seja feliz















Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012

A memória atraiçoa-me para o final do ano

Olho para trás e vejo 12 meses. Vejo Barcelona, a Costa Alentejana, Londres, o meu Algarve e Ela. Vejo os livros que li entre bancos de avião, deitado na cama, sentado no sofá. Vejos os contos que escrevi num caderno de capa preta, no iPad e no portátil e nunca publiquei. Vejo os filmes que ficaram na memória porque gostei. As marcas que usei, os ténis que cobicei. Olhar para o melhor é um esforço de memória que me custa.

Numa corrida renhida apenas pelo meu critério Deftones junta-se a Tame Impala nos melhores álbuns. Aquela onda da Praia da luz não teve concorrência. Ela riu-se depois de cair de cima da prancha. Warriors visto de madrugada, Rust & Bone visto num sábado de manhã e Shut up and play the hits visto à noite sempre sozinho. Tom Hardy a provar-me que os duros ainda têm lugar no cinema. Lana del Rey abraçou os 60 revisitados em 2012. New Balance nos pés e A.P.C. no corpo. Kafka à Beira-mar e Belos e Malditos fizeram-me sonhar e continuar a escrever.

Bom dia, Tristeza - A roda de mails




Recebido:
Estás a escrever de uma forma muito diferente nos últimos textos e gosto muito mais… está mais surrealista, mais Murakami. Apela mais à imaginação e eu gosto disso.
Estás a misturar os teus temas habituais dos teus gostos a nível de moda com referências literárias. Faz-me lembrar um pouco o Midnight in Paris.
Porque esta mudança tão súbita? Nada contra, claro 


Enviado:
Porque não controlo o que imagino. Nem sei onde começa. Depois de ter escrito o primeiro capítulo daquela história o Duarte ganhou vida. E um dia ele recebeu uma chamada da sofia Coppola. Isto de ter estado na Fnac com o filme Somewhere nas mãos. No caminho para o escritório passei pela Loja da Marc Jacobs e lembrei-me que ela uma vez foi o rosto de uma campanha qualquer da Marc Jacobs. Quando cheguei ao trabalho liguei tudo. E escrevi um texto. E diverti-me com ele.

Ontem à noite, já tinha o título “Na ilha dos Gatos” de um outro dia, e ao escrever o texto lembrei-me do livro Kafka à Beira-Mar. E se a realidade e a ficção não existisse se não na nossa cabeça? As personagens de livros pudessem viver connosco? Foi assim que nasceu o texto. Mas isso não me basta. Preciso de lhe vestir, torna-las minhas, apropriar-me porque ao imagina-las elas passam a ser minhas. E à noite lembrei-me de James Joyce quando peguei num livro dele por ímpeto. Nasceu o outro texto que também te mostrei.

Não sei, mas está-me a dar gozo misturar as coisas. Mas existe um problema para isto. É que quero tornar isto em algo maior. Mais que simples textos. O que me obrigaria a quase a por de lado o que estou a escrever.

Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012

Porque é que pedalo?




Por isto.

Bom dia, Tristeza



Vivo numa dualidade. Fecho os olhos e sou um. Abro os olhos e sou outro. Não consigo juntar as duas coisas. O único elo de ligação é sempre Ela. Presente nos sonhos, presente na realidade. Acaricia-me a face quando acordo. Beija-me a testa quando adormeço. Num sítio controlo o espaço tempo. Tenho amigos que lhe dou um nome, um passado e um rosto. Crio a forma como encaram a vida. Tenho o armário cheio de três cores. Onde a A.P.C. deixou lá camisas, calças e camisolas para que vista sem me preocupar. A última prateleira é um sem fim de ténis Nike todos iguais, todos da mesma cor. No outro sítio não controlo nada. Por vezes perco a noção onde estou. Ela está lá sempre.

Acordei no outro dia e Ela estava ao meu lado. Passou-me a mão pelo rosto e disse-me baixinho ao ouvido, tens alguém lá em baixo para ti. E saiu. Começa a tocar Time of My life de Patrick Wolf. Desço as escadas e olhar pelas janelas. Se estiver bom tempo estou num sítio, se chover estou noutro, mas os cortinados estavam fechados. Sentada no sofá com um vestido de época estava Cécile. “Olá, bom dia, desculpe vir incomodá-lo” diz colocando-se de pé. “Não faz mal, não faz mal”. “Foi Françoise Sagan que me pediu para vir, ela tem um recado para si”. “Para mim?”, pergunto sempre a olhar pela janela. “Não se preocupe onde está”, diz-me ela, “está onde tem de estar neste momento, foi Raymond que me trouxe num Renault antigo, ficou lá fora a beber Gin, não me posso demorar. Françoise pediu para lhe transmitir que só se escreve para uma ou duas pessoas para quem é importante a aceitação”. Acordei de novo.

Bom dia, Tristeza. Deixei onde quer que seja toda uma capacidade. Não consigo deixar crescer a barba porque aqui não posso. Uma mascara que não posso usar. Abro a janela e Lisboa está coberta por uma neblina. Ela entra pela porta, beija-me a testa vestida com um vestido creme Celine que lhe realçam os cabelos escuros. Maughan ligam-me, “Já acordaste?” pergunta-me. “Sim”. “Sabes, nunca achei que era material de primeira linha, dos primeiros da segunda, mas nunca da primeira. Das minhas limitações fiz as minhas qualidades”

Para cortar o cabelo, se faz favor

Um espaço para um cafe a serio, o que implica ser sem açucar. Ler uma revista de qualidade, deixar o jornal de lado, e poder cortar o cabelo. Os saloes, mas para tipos. Um bom corte de cabelo e um bom par de sapatos sao os minimos, tudo no meio sera desculpavel. Acredito no menos, porque sou um tipo simples, ou simplicista. Um corte de cabelo mensal, um banho diario e um pouco de perfume. Recordo-me dos anos em que nao tinha opçao de escolha, os meus pais levavam-me a um barbeiro. Uma fila enorme de cadeiras. Homens em sofas esperavam a sua vez. Cheirava a Lavanda e a toalhas lavadas. A minha mae, por sua vez ia a um salao, onde passava la imenso tempo. Cresci, deixei de ir ao barbeiro. Mudei de cidade. Fiz escolhas. Mas quero um lugar de tipos para tipos. Faz falta. Quero ouvir rock em pano de fundo. Ver Pin-up Girls nas paredes. Quero a "oldschool place but not oldfashion".

Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2012

Natal, ao Sul

Nesta zona árida e despojada de pessoas celebrei o meu Natal. Foram 300 km para baixo e serão hoje outros 300 para cima. As ondas não cresceram. Mas o sol ainda espreitou. Depois do almoço, com branco um pouco a mais no sangue, a areia era confortável. F. S. Fitz. fez-me companhia. O que o unia a Z era mais que amor, o gatilho para escrever. Os cafés não têm muita gente, mas uma ou outra miúda de botas pretas com tachas. Ela espera-me sentada com os óculos escuros e o cabelo apanhado. "Belos e Malditos" diz-me quando trago os dois cafés. Vamos subir pela costa com o sol na direita?



Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012

Sobre o Natal



Não interessa a religião. Acontecimento cultural. Ícone Pop pelo Chiado  acima Chiado abaixo para as últimas prendas. Não sou o maior adepto do Natal. Não desde que, contra vontade própria, me vi obrigado a crescer. Hora de almoço é como o ano passado, comi Bacalhau com Natas. O mais próximo que encontro da tradição. Voltei a beber uma ginginha a seguir a outra. E lá vem ela, a maldita da nostalgia. Isso e não ser capaz de guardar mágoa ou rancor a nada e a ninguém. Mas o pior em que com a nostalgia vem a sacana da melancolia. Álcool é um bastardo desgraçado. Abraços e beijos para todos, um Feliz Natal. E começo a desejar com força a noite de dia 24, que será passada entre correrias. Mas não interessa. Que se lixem as prendas, que se lixem as lembranças. Este ano quero é sorrisos. Como o ano passado. Como o ano que vem. E para sempre. Gostava que todos tivessem sorrisos. Nada é mais importante.

Porque esta altura é lixada.  Há quem nada tenha. Há quem não tenha um lugar ao lado para jantar com alguém. Para partilhar o que quer que seja. Mas nós vamos tendo. Mas há quem insista a sorrir. Pois vamos sorrir de volta.  Faremos o dia de alguém ter valido a pena.


Tradição. O último post no último dia de trabalho antes do Natal. O ano passado foi assim

E se fossemos um conjunto de marcas?



Uma linha entre todas que definissem uma orientação. Uma predisposição estética ou conglomerado de identidade visual a que se sobrepunha a pequenos pedaços. Na lógica de o todo, formado de tantos outros todos, ser o conjunto de partes. O ser é mutável porque os afectos, opções e o sentir transformam-se. Mas o Bosón de Higgs de cada um é inalterável. Gostos vão e vêm, mas a molécula do pecado original não sofre qualquer distanciamento do que era na origem, para o que é a qualquer momento.


New Balance;
A.P.C.;
Apple;
Sr. Prudêncio;
Warriors of Radness.

Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2012

Música para....

Ouve-se a batida, solta-se uma peça de roupa. Baixam-se as luzes ao mínimo, ainda se notam contornos. Ainda se vêem sombras. Dança-se sobre os lençóis. Nunca sob. Percorre-se a pele. Sente-se aqueles pêlos pequeninos nas palmas das mãos. A melodia abraça. Sente-se o calor. O cheiro dos dois corpos sobe no ar. Invade o quarto. É quente. É doce. É forte. Entra directamente pelas narinas, faz todo o caminho sem darmos por ele, corre rápido a entrar no sangue. Vai do cérebro ao coração até entrar nos pulmões. Perde-se noção do espaço. Perde-se noção do tempo. Os lábios correm. Param. Voltam a correr. As mãos sentem todo o corpo. Não há limites. Não há inibições. Existem dois. Existe só um. União. A compassos próprios. Regulares, irregulares. Como a música. A batida é certa, o andamento é transforma-se. Acompanha a melodia. Acompanha tudo. Baixo até ao alto. Êxtase.

  

A man that was bigger than the world itself

Orson Welles. Encabeça uma lista. A minha lista. Abro a porta do restaurante onde estariam todos aqueles que admiro. Mas todas as cadeiras estão vazias. A lista de convidados era enorme, mas só está Welles na cabeceira. Chama-me e pede para que me sente ao seu lado. Faço-o mas em silêncio. Continua a comer sem me dirigir palavra. Olho para a sala vazia tal como as cadeiras com os nomes dos convidados em pequenos cartões à frente. Leio alguns: Haruki, Wolf, Maughan, Breat E. Ellis, Joyce, Eça... à media que vou lendo os nomes há sempre mais um ao lado. E mais uma cadeira vazia. Welles continua a ignorar-me. "Sabes o que foi a Guerra dos Mundos?", finalmente diz-me alguma coisa. "Sim, um programa de rádio", respondo. "Mas sabes como nasceu?". "Não, não sei", volto a responder. "Quando olhas para dentro de ti e não vês um fim, é porque tens lá dentro um mundo, e depois tens de o fazer sair. Tem de nascer de dentro de mim, e quando assim é és maior que o mundo, aquele que criaste, porque nunca o que se cria se torna maior que o criador". "Nunca seremos maiores que Deus". "Meu jovem, para isso tens de acreditar n`Ele primeiro". "Mas nada disso explica as cadeiras vazias".

Diz-me para onde olhas


Dentro do carro e com o cabelo caído. Não estás de pé, não te conseguimos ver o vestido Balenciaga e os sapatos Prada. De lábios entreabertos respiras o sopro da surpresa. Diz-me que música tocava no rádio do carro. Vinhas pelo caminho a olhar para o vidro a cantar baixinho a letra?  Diz-me onde vais com essas pulseiras coloridas no pulso. Diz-me quantos corações já partiste. Diz-me quem te deixou nesse estado, em que choras sozinha em frente do espelho da casa-de-banho. Diz-me porque escondes os olhos vermelhos com a maquilhagem YSL que começaste a usar para imitar a tua mãe. Diz-me que queres voltar a sentir os braços do teu pai. Não escondas que no caminho bebeste às escondidas o álcool que te acalmou no momento em que abriste a porta do carro. Não me precisas de dizer porque sei que queres que ele esteja lá dentro a tu espera. Desejo-te sorte.   

Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2012

Para lá do som final


A sala ficou às escuras. Duas luzes azuis incidem no palco. Sombras negras em vulto. Um instrumento debita sons, junta-se um outro e mais outro. No final duas vozes como que em surdina cantam canções de amor que já foram, que são, que vão ser. O que está antes de subirem ao palco? O que está antes daquele momento em que a adrenalina sobe por ouvir as vozes de quem espera do outro lado do pano. Aquele momento em que se percorre os corredores com o copo de vinho tinto na mão e cigarro numa outra.
Oliver pousa o baixo a meio. As luzes estão quase todas na penumbra. Não se vê para lá do que deve ser visto. Vira as costas e diz o que o leva a compor, a escrever, a tocar. Naquela voz que é igual à sua música, calma, baixa, intensa. Não é por estar na capa da Fantastic Man. Não é por visitar Manhattan num palco nos fundos de um club. É um universo que é seu, que é deles. Que começa muitos antes de subirem ao palco. Que começa quando se juntam. A arte tem som, a arte tem impacto visual, a arte tem voz. O amor tem melodias. Eles só fazem a parte deles.

Foram três gerações




O meu Avô vivia no Algarve durante o Estado Novo. Um dia decidiu fugir clandestino num barco rumo a França. Lá desembarcou e rumou até Paris. Fez-se amigo de um tipo mais velho que se chamava Henri. Esse tipo ajudou-o nos primeiros tempos, arranjou-lhe um sítio para dormir e onde trabalhar. Apresentou-lhe aos amigos. O meu avô gostou de Paris naquela altura. Mas gostou ainda mais da namorada de Henri, Marie. Apaixonaram-se e decidiram ficar juntos. Henri e os amigos não lhes perdoaram. Ficaram sozinhos mas eram felizes. O meu avô trabalhava num restaurante e Marie num atelier. Marie engravidou e ambos queriam aquela criança. Mas Marie não aguentou o parto e morreu a dar à luz o meu pai. Sozinho o meu avô não tinha nem sabia como cuidar de um recém-nascido e decidiu regressar a Portugal, ao Algarve, onde ainda teria família. Regressou a casa dos pais mas só a mãe era viva. Aceitou receber o filho que não via há anos e o neto. O meu avô começou a trabalhar nas docas tal como o seu pai. Juntou um pouco e abriu uma pequena peixaria. Nunca faltou nada ao meu pai. O meu avô e o meu pai voltaram a ficar sozinhos quando morreu a avó do meu pai. O meu avô nunca quis que o meu pai começasse a trabalhar, queria mandar o meu pai para Lisboa para tirar um curso. Nos últimos anos o meu avô já estava muito doente. Na altura não conseguiram identificar do que ele padecia. Como se a vida depois de tudo começasse a esgotar-se. Só tinha aguentar mais uns anos até o meu pai terminar o seu curso, depois teria o seu descanso. O meu avô visitou Lisboa apenas para ir ver o meu pai receber o seu diploma e pela primeira vez desde que tinha recebido o filho dos braços do médico quando lhe disse a mãe não tinha sobrevivido ao parto voltou a chorar. Na viagem de regresso ao Algarve no comboio que os iria levar a Faro morreu ao lado do meu pai em silêncio. Soltando um último suspiro. Depois do funeral o meu pai começou a trabalhar no Hospital de Lagos mas à parte disso visitava algumas famílias da Meia Praia para ver a saúde dos miúdos. Com o apoio da Câmara Municipal conseguiu criar um plano de apoio às famílias mais carenciadas do-pós 25 de Abril. A fama do trabalho do meu pai alastrou-se e começaram a bater-lhe à porta pessoas de todo o Algarve que não conseguiam ou tinham meio para cuidados de saúde. A todos o meu pai abriu as portas da sua casa onde vivia sozinho. Muitas vezes pagava do seu bolso os medicamentos que essas pessoas necessitavam. Com o tempo abriu um consultório e continuou sempre com o plano de visita às famílias da Meia Praia. Recebia gente de posses e gente sem posses. O primeiro cuidado que dava era um sorriso. Os anos avançaram e a sua fama crescia, um médico novo que não tinha 30 anos recebia todos e ajudava quem precisasse. Um dia apareceu no consultório uma jovem morena de olhos verdes. Era assistente social e estava a preparar o projecto de final de curso e gostava que fosse sobre o trabalho que o meu pai vinha a desenvolver. O meu pai recusou ao início, fazia as coisas porque acreditava que devia àquela gente algo. Não fazia nada por fama ou glória. Com a insistência da jovem e com a promessa que o seu nome nunca seria mencionado lá aceitou. Com o passar das semanas tornaram-se próximos e apaixonaram-se. Decidiram casar e o meu pai finalmente saiu da casa do seu pai e da sua avó. Doou essa para continuar o projecto que tinha iniciado. Mudaram-se para uma casa na Praia da Luz e deixaram Lagos. Passados uns meses após o casamento a minha mãe ficou grávida. Uma gravidez que foi complicada e eu nasci prematuro. Durante o parto houve sérias dúvidas quem sobreviveria ou se algum de nós iria sobreviver. Mas contra todas as expectativas sobrevivemos os dois. O dia-a-dia do meu pai nunca se alterou até ao dia em que a vida lhe fugiu. Num Domingo de manhã levantou-se cedo como sempre e morreu. Levantou-se nesse dia somente para morrer. Um ataque cardíaco. O assassino silencioso. 

My iPhone love my Kicks

O briefing estava dado. Mas é tudo uma mentira. O meu iPhone não gosta dos meus kicks. Eu é que gosto de ambos sobremaneira.

Terça-feira, 18 de Dezembro de 2012

Hoje foi o dia


Depois de uma semana voltei a colocar a mochila militar às costas. Vestir o peacoat e enrolar o cachecol no pescoço. Vesti as luvas e subi para cima do selim. E pedalei. Voltei a contornar carros. Voltei a ser mais rápido que o trânsito. O cotovelo ainda dói um pouco, mas nada que me impeça. A bicicleta ainda tem algumas mazelas que serão reparadas. Mas nada que me impeça.

Ontem à noite, enquanto decidia ou não se hoje iria arriscar, vi o Premium Rush. Tem bicicletas, mas tem mais que isso. Tem NYC como pano de fundo. Tem Columbia University, onde se tira Direito, como eu tirei. Tem Central Park que é um dos sítios que mais gostei. Assim que o filme começa, logo na primeira cena ouvimos The Who, uma das minhas bandas preferidas. O Wilee também tirou direito mas não quer andar de fato, acha isso chato e aborrecido. Mas eu ando de fato todos os dias.

Mas nada disso me interessa hoje. Voltei a pedalar. Fui mais rápido que o trânsito.  

A Time diz quais as fotos do ano

E escolho esta.
Nos EUA andaram aos tiros contra crianças. Existe fome, guerra nas ruas. Matam-se pessoas por orientações sexuais, por dinheiro, por adorarem deuses diferentes. Por a cor da pele ser diferente. Mas existe esperança. Obama foi eleito. E eleito mais uma vez. A última. Tem feitos, tem defeitos. É ícono pop. Mas é justo. É correcto. É inspirador. E desafia o mundo. Desafiou uma américa moralista apenas das portas para fora. Obama pode ser muita coisa. Mas é também a esperança. Pode não conseguir fazer na sua pátria. O que fizer terá seguramente impacto no resto do mundo. Mas um dos seus feitos é olhar para dentro das suas fronteiras sabendo que existe vida para lá das mesmas.
Eu escolho esta. Eu escolho Obama pela esperança.
Não escolho as que retratam o que o mundo tem de pior. Não escolho sonhos desfeitos. Não escolho lágrimas pela dor do ódio.

Mesmo à frente dos olhos


A vida em frases


Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012

Depois do Almoço



Marc despediu-se apressadamente. "Adeus, tenho umas coisas enfadonhas para fazer, outras para despachar", diz quando se levanta e coloca os óculos escuros na cara. "E tu", diz-me, "toma um banho de água fria, melhor passa um dia no spa, faz qualquer merda, compra uma camisa nova, sei lá". Dá um beijo à Sofia e sai porta fora. Saímos depois nós os dois. Na rua ela dá-me o braço. Caminha ao meu lado com os seus passos pequeninos e os pés enfiados numas sabrinas indiferente aos olhares que algumas pessoas lhe deitam. "Sabes, o Marc tem alguma razão, Duarte". Diz sem sequer olhar para mim, sem parar de andar. "Onde queres ir?", é tudo o que digo. "Acreditas que nunca fui à Estátua da Liberdade?" Estamos a tempo. "Não hoje, diz-me, uma das coisas que mais gostas de fazer". Penso durante uns minutos. Acendo um cigarro e continuamos a descer a 9th Av. "Tanta coisa", respondo finalmente. "Tanta coisa e nunca fazes nada, passas todos os teus dias à espera do que nem tu sabes. Sabes, por vezes acho que se quisesse vender os teus direitos para um filme dispensava o guião. Dizia que bastava filmarem-te, dias após dia". Mantenho-me em silêncio com o cigarro apagado nos dedos.


O telefone tocou às 5 da manhã


Do outro lado da linha a voz sempre baixa de Sofia Copolla. Acordei-te?, pergunta-me. Esfrego os olhos e minto um não. Olho para o iPhone na mesa-de-cabeceira e são cinco da manhã. Desculpa, diz-me, perdi a noção das horas, cheguei a Nova Iorque e estou com Jet Lag. Não faz mal respondo. O Napoleão boceja aos pés da cama. Vou até à janela. Manhattan dorme lá em baixo. Luzes de todas as cores. Não oiço nem um som. Acendo um cigarro e vejo o fumo colar-se ao vidro tornado a cidade baça. Como se a visse ao longe por um sonho que começa a desaparecer. Estás aí?, oiço do outro lado da linha. Sim, estou. Não nos foste ver a Paris como tinhas prometido, nunca cumpres nada do que prometes. Fico em silêncio como um culpado sem defesa. Oiço para além da voz dela a intervalos uma música no fundo. O que estás a ouvir, pergunto? Como estão os miúdos? Procuro desviar as atenções. Estou a ouvir uma maquete dos Sonic Youth, pediram-me para fazer o vídeo de uma das músicas, posso escolher a que quiser. Os miúdos ficaram em Paris com Thomas. Estou no Astoria, queres cá vir amanhã almoçar? Vem o Marc também.  Aceitei e ela desligou. Silêncio e a luz da noite no quarto. E o fumo do cigarro que dança junto ao tecto.

Dou uma nota de 10 ao taxista e digo para ficar com o troco. Entro no Hall e lamento de imediato ter aceite. Imagino-a sentada à mesa com o Marc à esquerda. Ambos a imagem da perfeição. Sem olheiras, vestido de forma correcta e elegante. Ela sempre mais sóbria ele mais exuberante. Ela fala baixo ele um pouco mais alto. Ao menos escolheram a mesa num sítio onde se pode fumar. Vejo-os ao longe. Como calculei ela vestida com branco e preto patrocinada pela Stella. Ele curiosamente está todo de preto. Sento-me e acendo automaticamente um cigarro. Óculos de sol ainda na cara.

- Meu querido, estás com um aspecto de merda!
- Obrigado, Marc, és muito simpático.
- Não lhe ligues. Levanta-se e cumprimenta-me com um beijo na face. Gosto de te ver. Diz-me.
- Obrigado


Domingo, 16 de Dezembro de 2012

Está doente

E as hipóteses são muito poucas. Quem nunca teve um animal não vai perceber. Ou vai achar que percebe. Mas não vai. Não falam, não riem, nãos nos abraçam. Mas comunicam connosco. Cada um à sua maneira. Nunca vamos conseguir perceber como eles vêem o mundo, como olham para nós. Entendemos que eles são nossos, mas estamos errados. Eles não nos vêm como donos, isso é certo. Será que entendem o conceito de amizade? Será que a amizade como conceito existe no mundo deles? Conseguimos detectar afecto na forma como se deitam junto a nós, na forma como pedem festas. Todos os dias ao acordar temos algumas certezas, vamos precisar de nos vestir, comer e dar-lhes aquilo que eles também precisam. A sua vida, a sua vivência diária, está interligada com a nossa. Confunde-se com a nossa em todas as nossas decisões rotineiras. E este fim-de-semana confundiu-se com as suas necessidades. Mais importantes que os meus dois dias de lazer. Mais importante que o pedalar no domingo. Está muito doente. Uma doença rara que afecta somente 1 a 3% dos gatos. Tem 7 meses. E não é justo. Não é justo que não me salte para a cama de manhã e se vá deitar ao pé da minha cara para que acorde e lhe dê festas. Não é justo que abra a porta de casa e não corra para ver quem é. Não é justo que não mie o caminho todas nas viagens. Está doente. É grave e as hipóteses são muito poucas. Sou um pessimista mas quero tanto, mas tanto, ser hoje um optimista.

Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2012

Sou um pessimista que quer à viva força ser um optimista



Mas custa. Custa muito. Custa quando alguém entra numa escola e prime o gatilho. Custa acreditar que o Homem é cruel. Custa saber que o Homem tem um ódio pelo seu semelhante. Custa acreditar que o Homem consiga matar crianças, que lhe tiraram o tempo para se desenvolverem e conhecer as coisas boas que o mundo ainda vai tendo. Custa acreditar que aquelas crianças, em particular, não vão saborear mais o afecto, o amor, o carinho. Custa acreditar que aquelas famílias vão ter um fim nas fotografias em que registavam o crescimento daquelas crianças.

O mundo é, muitas vezes, um lugar de merda. E hoje, nos EUA, em Newtown, Connecticut, é o inferno numa escola primária. Caíram 27 pessoas, 25 delas crianças. Que crime cometeram para além de terem nascido? Que crime terão feito para merecer a morte pela mira de um homem? Nada merece a morte. Ninguém merece a morte. Essa é a minha convicção de pessoa, essa é a minha convicção de formação. O que fazes em vida, pagas em vida. Mas há castigos que são difíceis de ser satisfeitos.